Estava sentado, mãos algemadas, cabeça
baixa, olhava fixamente um ponto no chão. A juíza acabara de chegar com exata
meia hora de atraso. Estava iniciada a audiência!
O policial que realizara sua prisão,
relatava minunciosamente o ocorrido, ao responder as perguntas formuladas pela
acusação e pela defesa. “Meia noite, ele dentro do ônibus, levando consigo um
quilo de cocaína...” E toda aquela cena que não saia da sua cabeça.
Sua vergonha o impedia de olhar o rosto
das pessoas. Mirava o olhar apenas em sua mãe. Que apesar de presente,
parecia não ouvir as falas. Com os olhos
marejados e voltados para o teto, sussurrava angustiadamente o que parecia ser
a oração do ‘Pai Nosso’.
Chegara sua vez de relatar os fatos. Foi primeiramente advertido pela juíza que teria o direito de permanecer silente. E que seu
silêncio não seria imputado na condenação. Mas ele queria falar. Queria expor seus
motivos, e tentar convencer a todos do seu arrependimento. Enfim, implorar-lhes perdão.
Na hora, pensou numa história que lhe
havia sido contada ainda quando criança, a respeito de uma pecadora chamada
Maria Madalena. Pelo que recordava, ela seria apedrejada por ter cometido adultério,
mas Jesus intervindo perdoou-a de seus pecados e a salvou da morte. Como queria
que Jesus estivesse ali vestido a toga. Ele com certeza o perdoaria. Ele entenderia
seus motivos!
Começou a falar, respondeu todas as perguntas
feitas. Ao final, confessou o crime, e disse estar extremamente arrependido de
tudo. Indagado pela juíza se teria mais alguma consideração a fazer em sua
defesa, resolveu desabafar!
Contou que era soropositivo, que na
cidade onde morava não havia tratamento fornecido pelo SUS. Por isso, havia
comprado a droga, e que a venderia na cidade de Goiânia. Que o dinheiro da venda da droga venda iria financiar seu tratamento.
Mostrou-lhes as chagas das costas. Disse
do horror que é ser presidiário e aidético. E mais, que necessitava com
urgência de tratamento médico adequado, o que não tinha na cadeia! Contou de
sua sobrevida, dos dias inteiros deitados no chão da solitária. Disse estar apodrecendo vivo, física e moralmente.
Resolveu então fitar o olhar na juíza,
como num pedido implícito de súplica, sem palavras. Mas ela folheava distraída
um punhado de papéis que estavam sobre a mesa, e passava os dedos pelo teclado do
computador. Estava completamente indiferente as suas angústias. Só sua
mãe parecia prestar atenção.
Resolveu então terminar, percebeu o quanto tudo aquilo era doloroso e desnecessário. Aquela exposição toda, aquelas lágrimas, aqueles gestos.
Resolveu então terminar, percebeu o quanto tudo aquilo era doloroso e desnecessário. Aquela exposição toda, aquelas lágrimas, aqueles gestos.
Em seguida, começaram os debates. A juíza,
o advogado e o promotor trocavam palavras que ele não entendia sequer meia
dúzia.
Ao final, todos de pé, foi lido o
veredito.
-
Condeno o Réu a dez anos de prisão, a ser cumprida inicialmente no regime
fechado.
Do outro lado da mesa o Promotor
exclamara baixinho:
- A justiça foi feita!
