sexta-feira, 13 de abril de 2012

"A boa e velha justiça"


Estava sentado, mãos algemadas, cabeça baixa, olhava fixamente um ponto no chão. A juíza acabara de chegar com exata meia hora de atraso. Estava iniciada a audiência!
O policial que realizara sua prisão, relatava minunciosamente o ocorrido, ao responder as perguntas formuladas pela acusação e pela defesa. “Meia noite, ele dentro do ônibus, levando consigo um quilo de cocaína...” E toda aquela cena que não saia da sua cabeça.
Sua vergonha o impedia de olhar o rosto das pessoas. Mirava o olhar apenas em sua mãe. Que apesar de presente, parecia não ouvir as falas.  Com os olhos marejados e voltados para o teto, sussurrava angustiadamente o que parecia ser a oração do ‘Pai Nosso’.
Chegara sua vez de relatar os fatos. Foi primeiramente advertido pela juíza que teria o direito de permanecer silente. E que seu silêncio não seria imputado na condenação. Mas ele queria falar. Queria expor seus motivos, e tentar convencer a todos do seu arrependimento. Enfim, implorar-lhes perdão.
Na hora, pensou numa história que lhe havia sido contada ainda quando criança, a respeito de uma pecadora chamada Maria Madalena. Pelo que recordava, ela seria apedrejada por ter cometido adultério, mas Jesus intervindo perdoou-a de seus pecados e a salvou da morte. Como queria que Jesus estivesse ali vestido a toga. Ele com certeza o perdoaria. Ele entenderia seus motivos!
Começou a falar, respondeu todas as perguntas feitas. Ao final, confessou o crime, e disse estar extremamente arrependido de tudo. Indagado pela juíza se teria mais alguma consideração a fazer em sua defesa, resolveu desabafar!
Contou que era soropositivo, que na cidade onde morava não havia tratamento fornecido pelo SUS. Por isso, havia comprado a droga, e que a venderia na cidade de Goiânia. Que o dinheiro da venda da droga venda iria financiar seu tratamento.
Mostrou-lhes as chagas das costas. Disse do horror que é ser presidiário e aidético. E mais, que necessitava com urgência de tratamento médico adequado, o que não tinha na cadeia! Contou de sua sobrevida, dos dias inteiros deitados no chão da solitária. Disse estar apodrecendo vivo, física e moralmente.
Resolveu então fitar o olhar na juíza, como num pedido implícito de súplica, sem palavras. Mas ela folheava distraída um punhado de papéis que estavam sobre a mesa, e passava os dedos pelo teclado do computador. Estava completamente indiferente as suas angústias. Só sua mãe parecia prestar atenção. 
Resolveu então terminar, percebeu o quanto tudo aquilo era doloroso e desnecessário. Aquela exposição toda, aquelas lágrimas, aqueles gestos.
Em seguida, começaram os debates. A juíza, o advogado e o promotor trocavam palavras que ele não entendia sequer meia dúzia.
Ao final, todos de pé, foi lido o veredito. 
 - Condeno o Réu a dez anos de prisão, a ser cumprida inicialmente no regime fechado.
Do outro lado da mesa o Promotor exclamara baixinho:
- A justiça foi feita!

sábado, 14 de janeiro de 2012

O milagre da poesia

Nos intervalos dos estudos técnicos.
Muitas vezes, cansativos, herméticos,
me sirvo de um bocado de poesia
Capaz de aliviar a tensão da mente,
do óbvio, do racional.

De repente,
sinto que aquelas letras,
aquelas formas,
aquelas métricas,
Me invadem pelos olhos,
pelos poros.
Desorganizando tudo por dentro
Mudando a forma como vejo as coisas.

Absorto! Volto ao Tratado...
Volumoso, frio, impessoal, técnico.
E passo a lê-lo de outra forma.

Aquele texto tão pesado, indigesto,
Magicamente passa por transformações profundas,
Nele passo a enxergar; as rimas, as métricas...

As lições jurídicas tornaram-se poemas!

Percebo que as escamas dos meus olhos caem..

A poesia não é substantivo,
Coisa em sí,
Independente...
Ela adorna as coisas, adjetivando-as.

E intrigado, concluo que a poesia, não está na forma,
no autor,
no livro de poemas.

A poesia é uma forma de ler a vida.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Procuro uma palavra


Procuro uma palavra
Aquela...
Que traduza aquele sentimento, aquela sensação,
aquela...
que exprima aquela percepção.

 - Qual?
Me perguntam...
E fico sempre sem saber a resposta.

Procuro-a exaustivamente e não a encontro.
Recorro aos dicionários.
Meu vocabulário é escasso e as palavras são traiçoeiras,
Fico sempre à mão!

Tento colocar aquela mensagem naquela palavra
Mas não consigo.
Elas são rebeldes,
Elas possuem vontade própria.
E, infelizmente, desconheço a arte de domá-las.

Queria dizer outra coisa,
diferente daquela que contemplo em um amontoado de letras à minha frente.

A mensagem resiste ao símbolo,
Ela gosta mesmo das entrelinhas.

Acidentalmente, acabo fazendo poesia.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Síntese



Carrego dentro de mim dois seres... Duas faces, duas formas de ver a vida e de sentir as coisas. Duas personalidades. Tenho comigo dois óculos, que me fazem ver a realidade, conforme as distorções e os esclarecimentos produzidos por suas lentes.
Vive em mim, um realista: metódico, estudante de Direito, cético, racional, cartesiano. Cheio de planos para o futuro, resposta para as perguntas e caminhos a serem rigidamente cumpridos. Com os pés sempre fixados ao chão, é ele quem me faz ver as coisas com uma certa dose de esclarecimentos e racionalidade.
Junto dele, vive um idealista: louco, exagerado, metido a escritor, sem papas na língua, amante da poesia de Cora Coralina e da música de Milton Nascimento, crente em Deus. Alguém, que acredita e luta incessantemente por um mundo no qual a existência não seria o calvário que é. Um viajante, sem bagagens, sem planos pré-determinados, sem alvos a serem cumpridos. Que compreende a vida uma caminhada, sem ponto de partida e chegada, onde a felicidade é a única meta a ser alcançada.
Sou afinal, o arquétipo do homem de Freud, metade id e a outra alter ego, meio real, meio ideal. A síntese de um processo dialético doloroso, no qual o contingente e o transcendente se digladiam, e que juntos compõe uma consciência, formada pela mistura entre a razão e a emoção.